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Categoria: ARTIGO 01

30/06/2007 GMT 4

A ESCUTA TERAPÊUTICA NO DIÁLOGO

cabral @ 10:23

A ESCUTA TERAPÊUTICA NO DIÁLOGO
Por Nildson Alves Cabral
cabralpsi2@hotmail.com
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RESUMO
Como fazer do diálogo uma escuta terapêutica? A partir desse questionamento surge a idéia de um artigo que discutisse os elementos do processo comunicacional no desenvolvimento do diálogo e que pudessem contribuir com informações que auxiliem o leitor no desenvolvimento da aptidão de uma escuta terapêutica. Nossa pretensão é contribuir na orientação a uma escuta terapêutica com excelência a partir do diálogo, facilitando o encontro das pessoas e promovendo o crescimento pessoal.

Palavras-chave: Escuta Terapêutica, Linguagem, Processo comunicacional, comunicação não-verbal, psicanálise.
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"A coisa mais importante na comunicação é ouvir o que não está sendo dito."
Peter F. Drucker
1. Introdução

Ouvir bem, dentro do enfoque que pretendemos desenvolver, tem um significado que ultrapassa o simples conceito de perceber através do sentido da audição. A escuta do outro não requer só a presença de um emissor e um receptor de mensagens. Nas entrelinhas das palavras há uma infinidade de elementos que estão flutuando e poucos são aqueles que realmente estão preparados para pinçá-los. Pinçar os elementos flutuantes das palavras, gestos e atitudes daqueles que estão se expressando é uma arte e o seu efeito é muito interessante, podendo ser até terapêutico no sentido mais amplo desta palavra, ou seja, tendo representatividade nas resoluções dos problemas cotidianos das pessoas gerando “insight” e ampliação da consciência através do processo comunicacional.

Pessoas que querem ouvir pessoas devem estar preparadas para atravessar, com o outro, terrenos movediços, cheios de armadilhas; caminhos tortuosos e muitas vezes até falsos. Tudo isso pode se tornar uma grande aventura e, o que é melhor, permitir o crescimento de ambos, pessoa falante e pessoa ouvinte. Esse encontro vai ser muito mais proveitoso se aquele que se propõe a ouvir, de fato saiba o que está fazendo.

Dentro de um consultório atendendo aos meus clientes, permito o que convencionei chamar de espaço da fala, onde a pessoa conta a sua história, muitas vezes de dor, de sofrimento e que poucos ou ninguém sabe. Só tenho que considerar isso como algo sagrado, no sentido de que é algo sublime que merece toda a atenção e respeito. Emociono-me com a fala do outro, peço desculpas se preciso interrompê-lo, algo raro, ou quando preciso invadir mais a sua vida privada, o que é mais freqüente, e o agradeço por ter me confiadas informações suas. Com o tempo percebi um certo modo de ouvir que estava fazendo bem às pessoas e logo entendi que este modo diferente de ouvir, muito benéfico, requer conhecimento e prática. Enquanto emissor já havia sentido um certo bem estar diante de uma escuta capacitada.

Como psicólogo sei que nem sempre há demandas para uma terapia, mas as pessoas querem ser ouvidas sempre quando querem falar. Não só ouvidas como também bem entendidas. Percebam o quanto sofremos quando percebemos que o outro não nos dá a devida atenção. Sem retorno, sem feedback, sem o outro em atenção à nossa fala, ou seja, sem uma escuta, nos sentimos em abandono, sofremos mais.

Necessitamos destes espaços quase que diariamente. Já imaginou todas as vezes que sentir necessidade de falar ter que procurar um terapeuta? Enquanto psicólogo adoraria viver em uma sociedade onde isso fosse uma realidade. Mas não é bem assim. Claro que acredito que o terapeuta é a pessoa capacitada para tal, mas entrar em um processo terapêutico é algo complexo, requer tempo e muitas de nossas questões precisam de intervenções mais rápidas e precisas, a maioria na verdade. O que quero dizer com isso é o que todos já sabem. Há questões que podem ser resolvidas com alguém de ouvidos bem preparados. É aí que surge um outro problema, além do problema que é queixa do que fala. Como ouvir? O que é comunicação? Que elementos fazem parte desta relação? Que dificuldades ou ruídos interferem neste processo? Como posso fazer desse ouvir uma escuta terapêutica? São preocupações não só dos terapeutas como de todos os profissionais que lidam diariamente com a escuta de pessoas, e não só nas diferentes áreas profissionais como também nos diferentes campos relacionais das pessoas. De uma consulta em psicoterapia a um bate papo de desabafo com a vizinha, como posso, através do conhecimento e domínio dos elementos que fazem parte do processo comunicacional, entender melhor o outro e tornar essa relação em uma escuta terapêutica?

Pensando nestas questões surgiu a idéia de escrever algo que pudesse auxiliar as pessoas na arte do ouvir. Um artigo que pudesse nos ajudar com informações que introduziriam o leitor na incrível arte da escuta terapêutica, ou seja, uma escuta que resulta em crescimento para todos os envolvidos na relação de comunicação.

Este trabalho representa também uma busca pelo diálogo conforme entendida por Nietzsche :
“O diálogo é a conversa perfeita, porque tudo o que um diz recebe sua feição determinada, seu timbre, seu gesto que a acompanha, unicamente com relação ao outro interlocutor, por conseguinte, de uma forma análoga ao que acontece na correspondência, a saber, que uma só e mesma pessoa mostra aspectos da expressão de sua alma, segundo escreve ora a um, ora a outro.” (p. 221)

Nossa pretensão é contribuir com a proposta de orientar no desenvolvimento da aptidão de uma escuta terapêutica com excelência a partir do diálogo, facilitando o encontro das pessoas e promovendo o crescimento pessoal.

2. O Básico da Comunicação – Elementos, sentidos e funções da linguagem.

A palavra COMUNICAÇÂO tem a sua raiz etimológica no latim communis, nos dando um sentido ou idéia de comunidade, ou seja, de algo pertencente a um conjunto ou a uma relação de trocas. De acordo com MAGNE (1952) comunicar é participar, realizar trocas de informação, é fazer com que as idéias, volições ou estados d’alma se tornem comum aos outros. Subtende-se com isso que existe, nos processos comunicacionais, a possibilidade das pessoas se entenderem, fundindo idéias dantes isoladas. Trata-se de um movimento dinâmico em que aquilo que é meu, neste caso pensamentos e idéias, passa a pertencer ao outro e vice-versa.

Podemos nos comunicar com o outro de diversas formas. Fala, escrita, desenhos e sinais são alguns exemplos de comunicação pelos quais transmitimos uma mensagem. O tema aqui desenvolvido está mais relacionado à comunicação através da palavra falada e sinais de gesto. De acordo com R. Jakobson (1989), sete elementos podem ser destacados aqui:

a. Emissor – é aquele que, através dos diferentes tipos de códigos de comunicação, emite uma mensagem.
b. Mensagem – representa o conjunto de informações transmitidas pelo emissor.
c. Receptor – é aquele que recebe a mensagem.
d. Código – é a combinação de signos utilizados na transmissão da mensagem. Só poderemos considerar a ocorrência de comunicação quando o receptor decodifica a mensagem.
e. Canal de Comunicação – representa a via por onde a mensagem é transmitida: cordas vocais TV, revista, jornal, ...;
f. Contexto – também conhecido como referente. É a situação a que a mensagem se refere.
g. Ruído - é o fenômeno que perturba de alguma forma a transmissão da mensagem e a sua perfeita recepção ou descodificação.

Quando estabelecemos uma relação de comunicação com outrem, utilizamos os signos comunicacionais dando a eles sentido e significado, sem os quais não ocorrerá de fato o que chamamos de comunicação. Chamamos de sentido Denotativo quando usamos o signo em seu sentido real e o chamamos de Conotativo quando o utilizamos no sentido figurado, simbólico. Além do sentido, a palavra precisa de significado, ou seja, precisa representar um conceito. A esta combinação de palavra e conceito chamamos de signo lingüístico sendo a palavra o elemento concreto, o significante, e o conceito, o elemento inteligível ou imagem mental, representando o significado.

Quando alguém fala, se utiliza da linguagem com objetivos, ou seja, a linguagem tem funções, que podem ser:

a. Emotiva – também chamada de expressiva. Nesta função o emissor demonstra seus sentimentos ou emite suas opiniões ou sensações a respeito de algum assunto ou pessoa.
b. Fática – ocorre quando o emissor testa o canal de comunicação para ter a certeza de que está sendo entendido. É o Feedback.
c. Poética – utilizada nas obras literárias, principalmente poéticas.
d. conativa – também chamada de apelativa. Esta função tem por objetivo convencer o receptor a praticar determinada ação.
e. referencial – objetivo de informação. Também chamada de função informativa ou denotativa.
f. Metalingüística – palavras que explicam o significado de outra palavra.

Todas estas funções podem ocorrer simultaneamente em um processo comunicacional. Dentro do contexto que aqui estamos tratando, algumas funções merecem maior destaque, que são: emotiva, fática e referencial. Pensemos na utilização dessas funções e em quais teríamos um melhor resultado na escuta terapêutica. Algumas não devem ser utilizadas, como por exemplo a conativa, que é apelativa. Quando utilizada demonstra total despreparo para a escuta terapêutica.

3. O corpo também fala

Já vimos que a comunicação é entendida como sendo um processo de transmissão e troca de mensagens. Para tal utilizamos a linguagem verbal, através do uso das palavras, e a linguagem não-verbal ou linguagem corporal, em que utilizamos os elementos não verbais da comunicação que são os movimentos faciais e corporais, ou seja, os gestos, os olhares e a entoação da voz. Enquanto que a comunicação verbal é totalmente voluntária e, portanto, consciente por se tratar de um "conhecimento imediato da sua própria atividade psíquica" , o comportamento não-verbal pode ser uma reação involuntária e, em uma abordagem psicanalítica, podemos entendê-la como sendo um ato inconsciente, ou seja, diz respeito a elementos pelos quais conscientemente não temos acesso e, portanto, sem o nosso controle, mas que são de grande representatividade nos processos comunicacionais. Podemos concluir que há necessidade de preparo em uma leitura corporal para possibilitar a captação de dados por essa via de informação e manifestação do sujeito, do contrário, ficaríamos limitados apenas à linguagem verbal, diga-se de passagem, muito limitada. Para que a comunicação seja eficiente na interação pessoal, devemos dar a devida importância tanto aos elementos verbais como aos não-verbais.
Há vários trabalhos científicos que corroboram nossas afirmações sobre a importância da linguagem não verbal. Podemos dar um destaque especial a Charles Darwin que em 1872 publicou "A expressão das emoções no homem e nos animais" cujos estudos só foram reconhecidos e confirmados por pesquisas em 1960. Vejam os resultados das pesquisas:
O impacto total de uma mensagem é:
 7% Verbal (apenas palavras escritas)
 38% Vocal (incluindo tom de voz, inflexões e outros sons)
 55% Não-Verbal.(gestos e movimentos)
Em uma conversa frente a frente, o impacto é:
 35% Verbal (palavras)
 65% Não-Verbal (gestos e movimentos)
Os resultados destas pesquisas sugerem que a desconsideração da linguagem do corpo em um processo comunicacional representaria o desperdício de mais da metade das informações realmente transmitidas por um emissor.

4. A escuta em Freud

Foi Sigmund Freud o principal inaugurador do que chamamos de “espaço da fala”. Foi quem mais deu importância à palavra, fazendo com que a escuta ocupasse um lugar central dentro da psicanálise. Ele é o fundador do campo da escuta enriquecendo o processo comunicacional através da teoria psicanalítica.

Citando Freud em “A escuta Psicanalítica”, ALONSO afirma que
“Ao introduzir o conceito de inconsciente, Freud coloca a fala em outro lugar, alguém que fala e ao fazê-lo diz mais do que aquilo que se propunha. Neste falar, em certos momentos, a lógica consciente se rompe, se desvanece, e algo diferente se torna presente, manifestando uma outra lógica. A lógica do processo primário, presente no lapso, no sonho, no chiste, no esquecimento, na frase contraditória, no duplo sentido de uma frase que Freud manda Dora escutar quando lhe diz: “Memorize você bem suas próprias palavras. Talvez tenhamos que voltar a elas. Você falou, textualmente, que durante a noite algo pode acontecer que obrigue alguém a sair do quarto”

Após a teoria psicanalítica aquilo que antes não tinha muito sentido passa a ter um significado, fazendo conexão com eventos do passado, principalmente da infância. É exatamente neste contexto que iremos entender a idéia de que nada acontece por acaso. Desta forma, aplicando a relação de comunicação com o outro a uma abordagem psicanalítica, percebe-se a necessidade de se atentar para todos os detalhes na relação de diálogo. Há muito mais informações nas entrelinhas daquilo que é dito do que de fato naquilo que o emissor está falando, mesmo aquilo que se julga sem significado, principalmente por parte da pessoa que fala.

De acordo com SAURÍ :
“escutar refere imediatamente a fala e sua raiz latina vincula ‘o escutado’ ao ato de ouvir e de ‘montar guarda’; situação em que o escuta, cumprindo ofício de sentinela, vigia os sons provenientes de um campo diferente do seu próprio”

Tal citação traduz claramente a função proposta pela pessoa que se dispõe a escutar.

Outro ponto importante da teoria psicanalítica que merece destaque são os conceitos de transferência e contra-transferência. Na transferência os desejos inconscientes concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação, na pessoa que se ocupa do ouvir. ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 766-767). Podemos entender que se trata de um conjunto de sentimentos positivos ou negativos não justificáveis na presente relação mas fundamentados nas experiências da vida. A característica da transferência é repetir padrões da infância em um processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam na figura do outro, em nosso caso, na pessoa daquele que assume a posição de ouvinte na relação. Tal fenômeno tem sua importância nas relações comunicacionais facilitando os canais de comunicação e com isso permitindo que elementos inconscientes que contribuem para o sofrimento da pessoa possam se tornar conteúdo consciente e assim promover o crescimento pessoal.

Na contratransferência temos um “conjunto das reações inconscientes do analista à pessoa do analisando e, mais particularmente, à transferência deste” (LAPLANCHE & PONTALIS, 2001, p. 102). Segundo Freud, seria um obstáculo à analise e sendo assim deveria ser neutralizado e superado.

Pensando estas duas questões, transferência e contra-transferência, dentro de uma relação comunicacional, podemos entender que neste processo há um forte envolvimento emocional entre o emissor e receptor e que sem este envolvimento não há possibilidade de crescimento pessoal, ou seja, o efeito terapêutico não acontece.

5. Ética do sigilo

Não poderíamos deixar de abordar um tema de extrema importância para todos aqueles que se propõe ao desenvolvimento da aptidão de uma escuta terapêutica: Ética do sigilo. Tudo o que é dito pertence ao que diz. Eu posso saber por ele, mas é dele. O que foi dito foi dito para você e que fique exatamente assim. Importante deixar claro para o outro que os assuntos tratados no diálogo não serão levados para fora daquele espaço de fala. Do contrário estará demonstrado total despreparo para a prática da escuta terapêutica. Temos que ter respeito aos segredos das pessoas. As informações são sigilosas, representando algo que nos é confiado e cuja preservação de silêncio é obrigatória.

6. Considerações finais

Não foi pretensão nossa esgotar todas as questões que envolvem tema tão importante. Apenas contribuir com alguns conceitos que pudessem facilitar o desenvolvimento da aptidão de uma escuta terapêutica com excelência a partir do diálogo. Pelo exposto acima, acreditamos que o conhecimento dos principais elementos do processo comunicacional com a contribuição de conceitos da teoria psicanalítica, enquanto abordagem que tanto contribuiu, através da figura de Sigmund Freud, facilite mais o encontro e promova o crescimento das pessoas. Lançamos luzes sobre tema tão importante esperando que outros dêem continuidade a este trabalho, enriquecendo-o.

7. Referências Bibliográficas

ALONSO, Silvia Leonor. A escuta psicanalítica. Artigo extraído em http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs35/35Alonso1.htm . 27/06/1007 - 16:25h

DARWIN, C. A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. 2. ed. Tradução: Leon de Souza Lobo Garcia. São Paulo: Cia das Letras, 2000. Tradução de: The Expression of the Emotions in Man and Animals.

DRUCKER, Peter F. Foundation Liderança para o Século XXI. Editora Futura. 1ª edição – 2000.

FERREIRA, ABH. Minidicionário da língua portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro (RJ): Nova Fronteira; 1993.

FREUD, S. Análisis fragmentário de una histeria. in Obras completas, Biblioteca Nueva, Tomo I, p. 958.

FREUD, S. (1916/1976). Conferências introdutórias sobre psicanálise. Conferência XXVII – Transferência. In: Coleção standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 16, pp. 503-521). Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. Observaciones sobre el amor de transferência. in Obras completas, Biblioteca Nueva, Tomo II, 1914, p. 1692.

JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação. São Paulo: Cultrix, Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 1989.

MAGNE, Augusto. Dicionário etimológico da língua latina. Rio de Janeiro: INL,
1952.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, demasiado humano. São Paulo. Ed Escala. 2ª edição – 2007.

SAURÍ, Jorge (compilador), Las histerias, Ediciones Nueva Visión.

WEIL, Pierre e TOMPAKOW. O Corpo Fala. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 1996.

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